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16 de agosto de 2015

A TRISTE HISTÓRIA DAS ALGEMAS PARA CRIANÇAS INDÍGENAS

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Quando se trata de algemas, o assunto é sério. E quando elas são feitas “especialmente” para crianças, mais ainda.

A imagem abaixo é de um par de algemas usado em crianças nativo-americanas (indígenas) como meio de contenção física, de maneira a levá-las de suas famílias à força e encaminhá-las às American Indian Boarding Schools (Internatos dos Nativos Americanos, em tradução livre), instituições que tinham por finalidade prover “instrução civilizatória” aos jovens índios.
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Em reportagem recente à revista americana Indian Country Today, a pesquisadora Annette Pember conta a história dessas pequenas algemas que foram há pouco tempo retiradas do acervo restrito do Haskell Indian Nations University’s Cultural Center and Museum e levadas à público.

Entre o fim do Século XIX e início do XX, era comum que crianças indígenas frequentassem os Internatos nos Nativos-Americanos, com o intuito de assimilação da nova cultura americana – que por sua vez tinha raízes europeias. As famílias indígenas muitas vezes enviavam seus filhos voluntariamente, mas há relatos de casos em que crianças tenham sido levadas à força.

O oficial militar Richard Pratt, que fundou uma dessas escolas, é conhecido por uma de suas afirmações, em que dizia ter a missão de “matar o índio… e salvar o homem”, referindo-se à natureza “selvagem” do indígena que, se lapidado, salvar-se-ia o “homem”. Para tanto, estas escolas proibiam que os alunos usassem suas línguas nativas, eram submetidos a regras super restitivas em relação à alimentação, sono, vestuário e até corte de cabelo. Inclusive, em alguns casos, tinham seus nomes originais substituídos por nomes cristãos e forçados a seguir a nova religião, já que para ser considerado civilizado, o indivíduo deveria ter sua alma salva pela fé cristã. Ações muito parecidas aconteceram também no Brasil, por meio das missões Jesuíticas.

Como já sabemos, este tipo de embate cultural tinha como objetivo anular a cultura dos povos nativos. Leeeembre-se de que estamos falando do período da Revolução Industrial e que, no fundo, estas pessoas eram vistas pura e somente como futura mão-de-obra para as emergentes indústrias da época e para tanto, deveriam encaixar-se o modo de vida “civilizado” do homem americano. No mínimo falar e compreender inglês, por exemplo, de maneira que pudesse receber ordens. Acha que estou exagerando? O fato é que houveram escolas especializadas em formar operários de fábricas, como por exemplo a Carlisle Indian Industrial School, na foto acima do grupo de alunos.

É importante lembrar que este fato envolve um importante aspecto do Neocolonialismo (ou Imperialismo do século XIX) chamado Darwinismo social. Uma forma de racismo científico que procurou se apropriar da ideia de seleção das espécies e deturpá-la com objetivo de oferecer uma justificativa para as desumanas imposições dos países europeus sobre suas colônias. Neste sentido, esta proposta partia do princípio de que a “raça” caucasiana seria mais “evoluída” que os negros e asiáticos. Estas ideias foram apropriadas pelas camadas dominantes dos Estados Unidos, que acreditavam ter a missão de “civilizar” os nativos americanos e “salvar suas almas” por meio da imposição de uma cultura eurocêntrica, assim como pela religião cristã. Uma tremenda BALELA que, nesta época chegou até mesmo a ganhar espaço dentro das Universidades! Mas vamos parar de falar sobre este processo, por enquanto, e tentar entender melhor como estas algemas vieram à público.

Por muitos anos, Pembel e sua equipe tentaram entrar em contato com o doador da peça, Shane Murray, sem sucesso. Felizmente, depois da publicação de seu artigo, o doador se manifestou e veio a público contar sua história. De acordo com o doador, estas algemas foram usadas para conter as crianças que se recusaram a ir:

“Nós não temos nenhuma documentação definitiva de seu uso, mas dadas as muitas histórias de disciplina rígida usadas com os alunos nessas escolas faz com que esta hipótese seja plausível, uma vez que a própria instituição Haskell, que hoje abriga o museu, foi um colégio interno em seus primeiros anos e teve uma prisão no campus para confinar crianças que pisaram “fora da linha”.”
Murray, que doou a peça em 1989, contou que foi seu avô quem lhe as algemas quando tinha apenas 8 ou 9 e disse foram usadas para levar as crianças indígenas para a escola e avisou para nunca brincar com elas. Embora Murray não saiba como seu avô adquiriu as algemas, Murray supões que elas tinham vindo (literalmente) pelas mãos de sua avó, que era uma nativa americano de Oklahoma. Chocante, né?

É, mas esta é apenas uma das milhares de histórias que envolvem a relação entre os povos colonizadores e nativos das “terras descobertas” ( que era novidade apenas pra eles, porque os índios já conheciam e habitavam o território há séculos). Não é surpresa pra ninguém que situações muito similares de crueldade tenham acontecido no Brasil, onde a cultura indígena ainda é estigmatizada e muito pouco valorizada e os povos indígenas lutam arduamente para que seus direitos garantidos, principalmente em relação à demarcação de terras e reparações sejam atendidas.

Fonte: Paleonerd
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