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12 de setembro de 2015

PESSOAS VAZIAS

Pessoas vazias são metáforas dos filmes de Zumbís:

Andam em bandos, sempre com fome concorrendo entre
si para ver quem come mais carne (popularidade).
Não têm essência que desperte interesse, não
possuem sentimentos de tirar o fôlego.
SÃO MERAS EMBALAGENS DE UM PRODUTO DE VITRINE. (FACEBOOK)

E vivem acreditando que são invejadas e perseguidas.
VAL QIC



As ruas estão desertas…
Não existem pessoas olhando vitrines…
Procuro pessoas.
As ruas, os bares, os cinemas,
Os teatros, tudo está vazio…
Tudo está vazio, mas repleto de pessoas…
Pessoas sem rosto, sem nome, sem cor…
A multidão caminha…
E se atropela pelos caminhos…


(V.A. Angerami-Camon)


"As pessoas realmente solitárias são aquelas que cresceram assim, ou seja, apresentam um script (padrão de vida) solitário desde a primeira infância: filhos de pais com poucos amigos, crianças criadas sem festas de aniversário e cuja família não recebia nem fazia visitas, pessoas que se desenvolveram com pouco ou nenhum exemplo de vida social. Se inclui, também, nestes exemplos aquelas pessoas que no começo de sua vida, em algum momento, sentiram maltratados, abusados, desqualificados, rejeitados em algum comportamento. Isso faz com que tenham nos seus inconscientes um registro doloroso, que as mobiliza ao isolamento e à dificuldade de relacionamentos. Em alguns casos, a necessidade de isolamento evolui para um processo patológico, a esquizofrenia na qual um dos sintoma é a total incapacidade de entrar em intimidade com as pessoas.

Há indivíduos que, ao fazer um teste de personalidade, ou mesmo um encontro com um profissional à busca de ajuda, sintomas, sinais de uma pessoa que pensa, sente e expressa algo como: “É preferível estar com os animais a viver com as pessoas”. Está vivenciando um processo compatível com uma alteração psicológica. Neste caso, trata-se de uma decisão muito precoce tomada ainda na infância, de acordo com a qual os seres humanos podem lhe fazer mal e, por isso, os animais se constituem uma companhia mais confiável.

O desdobramento deste script, que tem a ver com algum trauma, sofrimento ou dificuldade de relacionamento, é a busca da solidão, costumariamente expressa pela seguinte máxima: “Antes só do que mal acompanhada”.
Ora, usar os animais para substituir as pessoas é algo muito sério. Um passo para a “loucura”. E com o passar do tempo, o comportamento solitário e a dificuldade de se aproximar dos outros vão aumentando cada vez mais, até que essa pessoa passa a viver na solidão total.

Não se pode fixar o caráter prejudicial de alguns comportamentos e atribuí-los às pessoas em geral. Por mais abominável que tenha sido a conduta de uma pessoa, isso não significa que toda a espécie humana esteja comprometida. As atitudes negativas podem e devem ser rejeitadas, mas nunca o ser humano, pois neste caso todos estaríamos condenados a viver na mais negra solidão.

Assim como a maior fonte de sofrimento para um ser humano é outro ser humano, o melhor remédio para as pessoas são as próprias pessoas.
Todo ser humano é gregário por essência, ou seja, existem determinadas “fomes”, necessidades biológicas, psicológicas e emocionais que só podem ser satisfeitas por outro ser humano.

Aqueles que não suportam a idéia de envelhecer têm medo de perder o controle sobre si mesmos e depender totalmente dos cuidados alheios. Na verdade, este é um receio infundado, porque o ser humano já é dependente por natureza: para comer, precisamos do agricultor que cultiva os alimentos; para ter luz, necessitamos de alguém que faça a manutenção das redes elétricas, para sermos acariciados, dependemos das mãos do outro, e assim por diante. Por isso, todas as pessoas que “enchem a boca” para dizer “Eu não preciso de ninguém” estão cultuando a própria solidão e, consequentemente, a própria morte.

Todas as pessoas precisam de pelo menos um amigo com quem trocar confidências, dividir os seus momentos de alegria e tristeza, enfim, desfrutar a vida. Por outro lado, não se pode ser amigo de alguém que não é capaz de estabelecer um vínculo afetivo. A amizade é uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que alguém estende a mão, o outro já se prepara para recebê-la. Trata-se de um troca mútua, a qual se torna inviável para aquelas pessoas que reproduzem o script da solidão.

Para viver na solidão não é preciso estar só. Quantas vezes você mesmo esteve rodeado de pessoas e, ainda assim, sentiu-se absolutamente sozinho? Na verdade, a solidão não é um estado nem tampouco uma sensação que, de vez em quando, pega de surpresa os mais distraídos. A solidão é um processo desencadeado na infância quando, por uma série de circunstâncias e sensações negativas, a criança decide se isolar em um mundo que é só seu.

Lembro-me da história de um dos meus clientes que em uma sessão conseguiu constatar algo em sua memória em que os pais ficavam com os irmãos brincando na cama e não havia mais espaço para ele. Às vezes, os irmãos chegavam primeiro e ele não buscava o seu espaço, nem era convidado pelos pais. Recordou que muitas vezes, ia para outro quarto e ficava sozinho. Na fase escolar, tinha poucos amigos. Na adolescência, menos ainda. Pouca opção com os pais e irmãos e por volta dos 25 anos se isolava muito mais. Aos 26 anos, já estava tomando remédios. Passava muitas e muitas horas em seu quarto fumando e ouvindo músicas, sem qualquer interação com as pessoas.

Na idade adulta, esta situação evoluiu para um comportamento de isolamento social, ausência de amigos, falta de confiança nas pessoas. Quase sempre a solidão do adulto é preenchida com drogas, bebidas, farras sem sentido e compras desnecessárias. E quando o efeito destes paliativos termina, o vazio torna-se ainda maior. Mas é possível estar atento para saber quando o ato de ficar só constitui um caminho para a morte.

Extraído do Livro “Viver Vale a Pena do Dr. Gervásio Araújo”"
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